quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Índios do Brasil

Poema Ecológico
1854

Como se pode comprar ou vender o firmamento, ou ainda o calor da terra?
Tal ideia é-nos desconhecida.

Se não somos donos da frescura do ar nem do fulgor das águas, como poderão vocês comprá-las?

Somos parte da terra e do mesmo modo ela é parte de nós próprios.
As flores perfumadas são nossas irmãs, o veado, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos; as rochas escarpadas, os húmidos prados, o calor do corpo do cavalo e do homem, todos pertencemos à mesma família.

Por tudo isto, quando o Grande Chefe de Washington nos envia a mensagem de que quer comprar as nossas terras, está a pedir-nos demasiado.

Se lhe vendermos a terra, devem recordar-se e ensinar os vossos filhos que os rios são nossos irmãos e também o são deles, e que, portanto, devem tratá-los com a mesma doçura com que se trata um irmão.

Sabemos que o Homem Branco não compreende o nosso modo de vida.
Trata a sua Mãe, a Terra, e o seu irmão, o firmamento, como objectos que se compram, se exploram e se vendem como ovelhas ou contas coloridas.
O seu apetite devorará a terra deixando atrás de si só o deserto.

Não sei, mas a nossa maneira de viver é diferente da vossa. Só de ver as vossas cidades entristecem-se os olhos do Pele Vermelha.

Não existe um lugar tranquilo nas cidades do Homem Branco, não há sítio onde escutar como desabrocham as folhas das árvores na Primavera ou como esvoaçam os insectos. Mas talvez isto, também seja, porque sou um selvagem que não compreende nada. Só o ruído parece um insulto para os nossos ouvidos.

Depois de tudo, para que serve a vida se o homem não pode escutar o grito solitário do noitibó nem as discussões nocturnas das rãs nas margens de um charco?
Sou Pele Vermelha e nada entendo.

Nós preferimos o suave sussurrar do vento sobre a superfície de um charco, assim como o cheiro desse mesmo vento purificado pela chuva do meio-dia ou perfumado com o aroma dos pinheiros.

O ar tem um valor inestimável para o Pele Vermelha….
O Homem Branco não parece estar consciente do ar que respira.

Por tudo isso, consideraremos a vossa oferta de comprar as nossas terras. Se decidirmos aceitá-la, eu porei uma condição:
O Homem Branco deverá tratar os animais desta terra como seus irmãos.
Sou um selvagem e não compreendo outro modo de vida.

Tenho visto milhares de bisontes apodrecendo nas pradarias, mortos a tiro pelo Homem Branco, da janela de um comboio em andamento.
Sou um selvagem e não compreendo como é que uma máquina fumegante pode ser mais importante que um bisonte que nós só matamos para sobreviver.

Que seria dos homens sem os animais? Se todos fossem exterminados, o homem também morreria de uma grande solidão espiritual. Porque o que suceder aos animais também sucederá ao homem. Tudo está ligado.

Ensinem aos vossos filhos aquilo que nós temos ensinado aos nossos, que a terra é nossa mãe. Tudo quanto acontecer à terra acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, cospem em si próprios.

Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; O homem é que pertence à terra.
Tudo o que acontecer à terra acontecerá aos filhos da terra.

O homem não teceu a rede da vida, ele é só um dos seus fios.
Aquilo que ele fizer à rede da vida ele o faz a si próprio.